ser uma jornalista: risco duplo.

uma reportagem construída com base em entrevistas, testemunhos pessoais, pesquisas, dados e opiniões, abordando o sexismo no jornalismo brasileiro.

O sexismo no jornalismo brasileiro não se popularizou somente após a tomada da extrema-direita. Sua fundação é sólida, perpetuada pela mídia comercial e imortalizada por uma parcela da população que consome esse conteúdo e perpetua os estereótipos da profissão. Também não se engane: o desgosto a jornalistas mulheres não vem de somente de um lado do espectro político, e está na hora de discutirmos isso.

Da descredibilização ao assédio.

Uma das melhores maneiras de analisar política é tentar analisar um ambiente em que você tem proximidade. Essa análise é valiosa porque por ser um ambiente que você frequenta, algumas informações podem passar despercebidas até se tornar mais atento a elas e, quando tal espaço é diversificado em questões de gênero, raça, classe ou região, as contradições podem ser evidentes, mesmo que passem despercebidas aos olhos. 

Buscando analisar a problemática de perto, realizei um questionário, anônimo, com a equipe feminina desta revista. Nele, uma colega relatou que ‘depois que meu texto na revista foi publicado houve uma onda de hate (que infelizmente já estou acostumada) para mim. Como todas as minhas redes sociais são privadas, decidiram invadir meu espaço de trabalho e o perfil aberto da minha plataforma para me xingar e diminuir’. 

O espaço virtual é, hoje, uma extensão do universo real, dando a possibilidade de alguns agirem em suas fantasias sexistas. Ou seja, utilizam do ‘anonimato’ que a internet garante para fazer o que provavelmente nunca fariam na vida real. Nesse âmbito, ataques virtuais representam uma das maiores ameaças para jornalistas mulheres e os dados comprovam isso. 

Uma pesquisa conduzida pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) mostrou que jornalistas mulheres são as maiores vítimas de ataques no meio virtual. No estudo, alguns casos são relatados, onde pode-se afirmar que a perseguição a profissionais da área são feitos especificamente por conta do seu gênero, justamente pelo conteúdo dos ataques. Uma das práticas preferidas dos agressores é o doxxing, crime de vazar informações privadas – como número de documentos, número pessoal, endereço – de um indivíduo ou entidade privada sem consentimento.  

Esses ataques podem vir por tudo, ou por nada. Em uma área ainda dominada por homens, uma fala precisa ser repensada diversas vezes antes de ser dita, uma palavra publicada precisa ser revista mais vezes do que a demora de escreve-la e qualquer opinião expressada precisa ser fundada em uma pesquisa capaz de escrever um livro.  

Falar sobre isso não significa que acredito que qualquer um deva ter a liberdade de dizer o que pensa sem fontes ou credibilidade, de forma alguma. Acredito no artigo terceiro do Código de Ética dos Jornalistas, que argumenta: “A informação divulgada pelos meios de comunicação pública se pautará pela real ocorrência dos fatos e terá por finalidade o interesse social e coletivo”. O ponto é que dificilmente você verá uma profissional da área argumentar em um debate sem possuir um domínio real do tema por medo de que qualquer passo em falso seja um passo fatal. Você vê esse medo por parte de homens? Afinal, quantos sites de informação falsa no Brasil são custeados por mulheres? 

Esse medo não existe somente para as mulheres da comunicação que novas na área ou trabalhem em locais pouco reconhecidos, ele está presente até para mulheres com carreira estabilizada e nome reconhecido. 

Em entrevista comigo para a produção desta reportagem, perguntei para a professora e ativista Lola Aronovich se ela já pensou em desistir de atuar parcialmente na comunicação e ativismo por conta de perseguições machistas. ‘Sim, é cansativo e suponho que todos os ativistas já pensaram em parar, ou no mínimo dar um tempo. Fazer um blog, manter um canal, dá muito trabalho, ocupa muito tempo, e geralmente não há qualquer retorno financeiro. Eu planejo me aposentar da universidade um dia e penso que, quando parar, vou parar com tudo, inclusive com o ativismo. Mas não é tanto pelos ataques, é porque cansa mesmo’, respondeu. 

A história de Lola Aronovich é a representação material da resistência feminina na comunicação. Há mais de treze anos, Aronovich é perseguida e ameaçada por homens, os quais ela chama de ‘mascus’, após ser responsável pela criação do maior blog feminista do Brasil, o Escreva Lola Escreva. Os ataques se tornaram tão baixos que até seu emprego como professora na Universidade Federal do Ceará entrou em jogo – ameaçaram o reitor caso ela não fosse despedida. 

“Você realmente vai postar isso?”

Em todos os questionários e entrevistas com mulheres, existe um medo que está sempre lá: a exposição. Somando as respostas dos questionários conduzidos entre mulheres que participam desta revista, e mulheres fora dela, quase noventa porcento afirmou ter medo de postar algo em suas redes sociais e ser reconhecida. 

Tal receio também é compartilhado por Aronovich. ‘Eu aguento bem as perseguições, ameaças e ataques, mas sei que não é todo mundo que se acostuma a essa violência. Publicar fotos de familiares menores de idade, por exemplo, eu não faço, porque sei que os misóginos covardes atacam crianças. Tem amigo que pede para não publicar a foto, e eu não publico. Por outro lado, não faz tanta diferença o que você publica ou não. Eles fazem montagens. Por exemplo, eu nunca posei para um nude. Mas tem nude meu circulando na internet. É montagem’, afirmou a professora. 

O que cria esse medo? A descredibilização. Ser mulher na comunicação significa, socialmente, estar exercendo sua função profissional a todo segundo. Ao não exercer sua função profissional, uma abertura é criada para que desconhecidos tentem ter contato através de seus interesses, posts ou até através de um desabafo lamentando a perda de um ente querido. E essa abertura pode e será utilizada contra a mulher, já que uma foto com roupa de banho em suas redes sociais pessoais pode resultar na perda de seu emprego – como foi o caso da apresentadora Mariana Martins, demitida da Record após publicar fotos de biquíni. 

A maior parte das entrevistadas também respondeu que precisou tomar uma medida pessoal para evitar ataques ou investidas amorosas de desconhecidos, que consistem em fechar seu perfil. O que, novamente, também causa uma implicação na vida profissional. A comunicação, mesmo o jornalismo, está essencialmente atrelada às redes sociais. Como, em um espaço já dominado pela presença masculina, uma mulher poderá desbravar tal campo se não tem a possibilidade inicial de encontrar um novo público, já que todas as suas redes sociais precisam ser fechadas para impedir infiltrações sexistas? 

Dar tal abertura para desconhecidos também dá a ferramenta para que os mesmos possam julgar a mulher pelo seu exterior. Sua inteligência pode ser medida por estranhos através de qual roupa você resolveu usar naquele dia, se resolveu usar maquiagem e até repetiu uma roupa na mesma semana. O mesmo acontece com homens até um certo ponto, mas não é igual. O apresentador australiano Karl Stefanovi provou isso materialmente, após utilizar o mesmo terno por um ano em seu programa para denunciar o sexismo. “Ninguém reparou. Mas quando as mulheres usam a cor errada são duramente criticadas. Elas dizem uma coisa errada e há milhares de tuítes sobre o erro”, disse o apresentador. 

Quando quem você é se torna um agravante.

Os entrevistados também se mostraram atentos ao perigo que é ser uma jornalista mulher na área dos esportes. Ao serem perguntados se conheciam um caso onde uma mulher na área da comunicação que precisou provar sua intelectualidade por conta do seu gênero, mais da metade dos entrevistados respondeu que sim. Um deu diversos exemplos: “Mulheres que comentam sobre futebol, a questão exacerbada do machismo explícito em que esportes apenas homens saibam das coisas com prioridade, e que mulheres não foram feitas para participar ou comentar de esporte a ou b, pela questão que o próprio país ou políticas públicas não façam a inserção das mulheres nos esportes”.

Tal perigo também pode ser comprovado com dados e não só testemunhos pessoais, através da pesquisa “Mulheres no Jornalismo Brasileiro”, onde a consultora executiva da mesma pesquisa, Maiá Menezes, atestou a existência de um risco duplo para mulheres nas áreas de política e esportes. Existem certos fatores que dificultam a entrada de mulheres em certas áreas de trabalho, neste caso, o âmbito esportivo é dominado pela presença masculina — desde o público, até a redação e editoria. 

No estudo, especificamente no segmento sobre diferenças de gênero no mercado de trabalho do jornalismo, é mostrado que apenas 4.3% das entrevistadas responderam trabalhar na editoria de esportes. Também há um estigma social: “Esse quadro sugere uma certa divisão do trabalho jornalístico conforme os antigos estereótipos que apontam que os homens são mais aptos a trabalhar em áreas como esportes e tecnologia, enquanto mulheres teriam afinidade com temas como viagem, comportamento, moda, etc.”

Esses estereótipos se tornam mais fortes ao abordarmos questões de raça e religião. Quantas vezes, por exemplo, você já viu uma jornalista com pele retinta na televisão brasileira? Ou uma jornalista muçulmana usando um ‘hijab’, vestimenta comum islâmica? 

Porque não vemos diferentes categorias de mulheres ocupando espaços representativos no jornalismo, e como essas mulheres se sentem? A resposta se encontra em uma mistura de sexismo, racismo, intolerância religiosa e todos os preconceitos que uma sociedade neoconservadora consegue carregar, mas, porque não estamos indo atrás desse problema? Enquanto a imprensa hegemônica atrai atenção para o feminismo neoliberal, mulheres que não são beneficiadas por tal movimento continuam excluídas no meio profissional. 

Para discutir sobre tais tópicos, entrevistei Alice Barbosa, paulistana que atua na área do jornalismo esportivo e, atualmente, reside no México. Barbosa é jornalista esportiva e escritora de basquete, e, com uma trajetória admirável, ela é responsável por dois dos maiores sites do tema no país — o Esporte Clube Basquete, onde é editora-chefe, e o Árbitros NBA, único no mundo em jornalismo de arbitragem, onde é criadora. Contudo, ela é uma representação material do título desta reportagem, já que, entre a cruz e a espada, ela não só é jornalista, como também é uma mulher muçulmana. 

Os maiores conflitos da vida de Barbosa se apresentaram por conta de sua religião e idade. Em entrevista, ela afirma que não se adequar ao estereótipo construído socialmente em torno de jornalistas esportivas é uma das maiores dificuldades em seu trabalho. Mesmo sendo extremamente competente em sua ocupação, Barbosa ainda escuta falas como “você não está velha demais para isso?”. 

Quando Barbosa se refere ao peso que sua idade possui diante sua profissão; peso este que não deveria existir, é crucial falarmos sobre o peso de estereótipos e como eles contribuem para o sexismo na profissão. Essa questão possui um nome, o ageismo, e já é abordada por feministas há um bom tempo. Em áreas onde o entretenimento é uma premissa, como o jornalismo esportivo, é de se esperar que os atores que compunham a cena também sejam performáticos. Isso significa que cada personagem está ali cumprindo um papel de entretenimento para o público, e no caso do jornalismo esportivo, mulheres jovens da área são normalmente postas como um enfeite de mesa. Seu único papel é decorar o ambiente. 

Fora o ageismo, a intolerância religiosa continua sendo o principal assédio sofrido por Barbosa. Em entrevista para esta reportagem, ela relatou uma experiência de intolerância religiosa enquanto trabalhou, por somente um dia, em uma grande agência de publicidade e propaganda no México, a Becker/Socialand

Durante o processo de seleção, ela realizou cerca de quatro entrevistas através de videoconferências para o trabalho de tradutora. Nelas, ela utilizava seu ‘hijab’, uma vestimenta comum para mulheres islâmicas, e isto nunca foi um problema, até ela ir presencialmente para a agência. 

Quando ela chegou para seu primeiro dia, não recebeu nenhuma recepção de seus colegas de trabalho, o que é extremamente comum em empresas de tal porte. Todos seus colegas se afastavam, nenhum lhe deu boas-vindas ou explicou qual seria sua função naquele ambiente, nem mesmo os indivíduos que lhe entrevistaram. No segundo dia, perdeu o emprego por ser muçulmana. “Quando voltei no segundo dia para trabalhar, a mulher dos Recursos Humanos falou: olha, não dá mais para você trabalhar aqui, sua chefe não sabia que você era muçulmana”, relatou.

Barbosa também relatou outras experiências, algumas entrelaçadas com a xenofobia e o sexismo, mas sempre tocando na intolerância religiosa. Uma delas ocorreu na filial mexicana da TeleTech, empresa de tecnologia e ‘marketing’. 

Falando três idiomas fluentemente, a jornalista conseguiu uma vaga de tradutora e, coincidentemente, sua superior era brasileira. Pouco tempo depois, Barbosa começou a reparar imitações feitas por seus colegas e notou o que estava acontecendo. “Eu ficava isolada em uma sala, mas quando o pessoal administrativo passava, eles imitavam minha voz como o Chewbacca, de Star Wars, porque aqui as mulheres têm a voz muito fina. (…) Quando eles me ouviam falando português com minha superior, eles imitavam os gritos do personagem”, afirmou. 

O preconceito diante mulheres muçulmanas também é frequente na imprensa ocidental, sobretudo em países onde a colonização teve como principal aliado as instituições católicas, como o México e o Brasil. Para analisar essa questão, a professora assistente do Departamento de Ciência Política da Universidade de Chicago, Rochele Terman, analisou trinta e cinco anos de reportagens de grandes jornais norte-americanos sobre mulheres islâmicas e conduziu uma pesquisa estatística, chegando a duas hipóteses. Entre elas, a que mais me chama atenção é a primeira, que a probabilidade de cobertura internacional sobre direitos das mulheres é condicional ao país em questão ser muçulmano ou do Oriente Médio em âmbito negativo. 

Conforme a pesquisadora, jornalistas ocidentais estariam mais propensos a produzir reportagens sobre a violação de mulheres em tais países. “Reportagens sobre mulheres podem apresentar características especiais que as distinguem das reportagens gerais. Os jornalistas podem tratar as histórias sobre mulheres como notícias leves, exigindo mais entrevistas pessoais e pesquisas de campo do que notícias pesadas”. 

Analisando termologias, padrões de escrita e dados, ela chega a conclusão de que os resultados indicam um ‘padrão de parcialidade’ em relação ao que a imprensa norte-americana enxerga como interessante para o público. “As mulheres não muçulmanas, por outro lado, têm maior probabilidade de aparecer na mídia em contextos onde seus direitos são respeitados. Isso sugere uma espécie de viés de confirmação, segundo o qual as mulheres muçulmanas são associadas a países que violam os direitos das mulheres, enquanto as mulheres não muçulmanas são associadas a países que respeitam seus direitos.”

Situações como de Barbosa também se alinham nesses estereótipos de mulheres islâmicas — somados ao olhar masculino perante mulheres jornalistas. Por não ser uma mulher frágil, externamente, e sem medo de mostrar seus ideais políticos, religiosos e culturais, ela sofre tais situações. A tentativa de desacreditar Barbosa perante sua identidade foi árdua, tanto por brasileiros como por mexicanos, mas não parece ter tido sucesso.

A perpetuação do caos através de Hollywood

Os estereótipos da área partiram de falas corriqueiras para o cinema, tornando-os ainda mais danosos. Em programas como ‘House of Cards’, as repórteres sempre estão trocando sexo por fontes, informações ou promoções. Esse pensamento cria a imagem de que mulheres não estão exercendo sua intelectualidade para conseguir avançar na carreira, mas utilizando seu corpo. 

Em um estudo sobre os estereótipos de Hollywood sobre jornalistas mulheres, um pesquisador norte-americano notou que pessoas com tendências a desconfiar da imprensa acabam acreditando em tais clichês – sejam liberais ou conservadores. Em seu conceito original para o experimento, Frank Waddell queria contrastar as reações às representações sexistas de mulheres jornalistas em programas e filmes populares com as positivas. Ele não conseguiu encontrar nenhum. “Como a maioria das pessoas tem poucos encontros em primeira mão com repórteres, ou nenhum, Hollywood pode ter uma influência descomunal. Maneiras de se opor a isso podem incluir maior contato entre pessoas comuns e jornalistas, seja por meio de eventos na prefeitura, expansão da interação na mídia social ou abordagens criativas para desmistificar o que acontece dentro de uma redação”, afirma o pesquisador.  

Ele também faz uma ponderação importante: os estereótipos eram mais perpetuados por indivíduos com maior desconfiança na imprensa, independentemente da corrente ideológica. É comum que a ‘instituição’ imprensa seja, muitas vezes, confundida com a mídia hegemônica no Brasil, mas esse não é o caso. 

É importante ressaltar: desconfiar da imprensa, nesse contexto, significa não acreditar no papel da imprensa livre em ambientes democráticos, o que não é semelhante à desconfiança popular em relação a grupos comerciais de mídia hegemônica. Os conglomerados de mídia comercial apresentam um monopólio do mercado, tanto que ao se falar de imprensa, o público automaticamente associa a instituição a tais empresas. Mas ela é uma instituição ampla, vasta, composta por grandes e pequenas organizações, comerciais ou independentes. Logo, ao apresentarem o monopólio do mercado, quaisquer ações tomadas por tais empresas — como, por exemplo, ações que visem aumentar a representatividade — são tomadas como absolutas e únicas. O que não é a realidade. 

O estudo também afirma que pessoas que já tinham pontos de vista estereotipados ou sexistas em relação às mulheres tinham maior probabilidade de acreditar que tais retratos sexualizados de jornalistas eram precisos. Os autores do estudo dizem que quando esses indivíduos veem mais e mais filmes com representações sexualizadas de mulheres no jornalismo, isso fortalece essas crenças e cria um ciclo vicioso de sexismo. 

Trazendo a análise dos pesquisadores para a realidade brasileira e ao tópico desta reportagem, será que podemos chamar uma parcela do jornalismo brasileiro de entretenimento? Ao analisarmos programas de jornalismo policial, por exemplo, podemos realmente afirmar que hoje, eles são informativos e não um meio de entretenimento? 

Ao falarmos disso, é necessário, também, abordamos quem é responsável por isso. Hoje, a maior parte da mídia, comercial e hegemônica, é comandada por conglomerados que, muitas vezes, não se apresentam como organizações de imprensa, mas como administradoras de entretenimento. Isso pode ser visto desde a escolha do que publicar, ou não publicar, até aos anunciantes e sua influência nas publicações. Como empresas comerciais e administradoras de entretenimento, eles seguem uma linha de pensamento: aquela que entrelaça as opiniões do conselho editorial e dos anunciantes e cria, por fim, um produto: a ‘informação’. A partir disso, não é jornalismo. É entretenimento. 

Dando um exemplo relativo ao teor desta reportagem, falaremos da cobertura da imprensa sobre os protestos do FEMEN, grupo feminista radical ucraniano, no Brasil. Na época, a mídia comercial criou uma narrativa cinematográfica: ali, haviam os atores principais; naquele momento, Sara Winter, secundários; integrantes do grupo que tinham espaços ocasionais na mídia, e os vilões; o feminismo em sua essência. 

Com esta peça criada, o que era lucrativo para as empresas comerciais era representar o grupo ucraniano como o movimento feminista em sua essência – enquanto o que era informativo, seria mostrar a radicalidade do grupo e como ele se diferenciava de, praticamente, todas as vertentes do movimento feminista. 

Portanto, se tais mídias comerciais se apresentam – informalmente – como mídias de entretenimento, elas também são responsáveis pela criação de estereótipos, assim como produtoras de Hollywood. E nesse caso específico, elas foram responsáveis pela criação de um grande clichê: feministas radicais representam todas as feministas. Isso definitivamente atingiu todos os setores da sociedade brasileira, incluindo o jornalismo e como o público percebia mulheres do campo. Após tal cobertura, toda e qualquer profissional que abordasse o feminismo era uma radical, tanto que se passaram anos até o assunto ser abordado com honestidade e clareza pela mídia — e quando foi abordado, foi transformado em produto. 

Não é possível medir quantitativamente qual o dano que tal escolha trouxe para a sociedade brasileira, mas podemos sim, afirmar que houve um impacto tão profundo que, durante o levante de extrema-direita no Brasil, o feminismo chegou a ser comparado com o nazismo. E ainda é. 

A lógica de valor de mercado é necessária para que a mídia de entretenimento continue existindo, sobretudo em momentos de crise política. Não é a toa que durante as grandes guerras, a imprensa internacional se uniu com a publicidade para criar uma utopia de que mulheres iriam salvar suas nações, enquanto seus maridos iam para as guerras — a clássica falácia da Pré-História, mulheres ficam na toca e homens vão para a caça. Para nós mulheres, foi dado lugares nas fábricas e até direito de voto, tudo isso para no fim da guerra, nos transformarem em donas de casa novamente. No Brasil de Jair Bolsonaro, em um momento de clara crise política, as mulheres são necessárias para a mídia comercial. Mulheres são estatisticamente menos favoráveis a ideologias conservadoras, portanto, provavelmente não concordarão com narrativas radicais contra a imprensa — presentes em discursos ideológicos da extrema-direita brasileira. Com isso são um público mais confiável — e lucrativo

Sua existência é um teste

Em um questionário anônimo conduzido somente com a equipe masculina desta revista, mais da metade dos entrevistados afirmou já ter visto uma mulher na área da comunicação que precisou provar sua intelectualidade por conta do seu gênero. Isso mostra que homens, sobretudo os mais jovens, estão cada vez mais atentos às situações conflitantes de disparidade de gênero, como comprova o seguinte testemunho anônimo: “Foi uma situação que, perante qualquer afirmação ou questionamento, o peso e o descrédito às falas dessa mulher eram muito maiores. Ela questiona o porquê disso e, para os que responderam, a justificativa seria de tentar entender e pelo profissionalismo. O incoerente é que a moça é quem tinha a melhor formação de área para o que estava sendo discutido”. 

Reafirmando que tais situações podem ocorrer em ambientes diversificados, diversos casos conflitantes de disparidade de gênero foram relatados nos questionários da revista. Em alguns testemunhos, colegas responderam haver uma dificuldade maior quando mulheres tentam se posicionar em reuniões. Em outros, citaram um caso que ocorreu na equipe, onde eu, editora-chefe, fui chamada de ‘aspirante a jornalista’, por um ex-membro — que, além de somente se retratar publicamente após ser cobrado para tal, também teve atitudes machistas perante outras colegas.

O jornalismo continuará sendo um ambiente de trabalho machista enquanto mídias hegemônicas manterem o controle de audiência — ou seja, continuarem sendo os principais veículos de consumo. Essa afirmação não vem de uma dualidade entre bem em relação ao mal, mas de uma análise de mercado. Falar sobre coisas que incomodam, como o machismo, é visto como análise política ou discurso político, e não como um sintoma da sociedade doente que precisa ser resolvido. 

Tais mídias estão menos propensas a mudança porque estão estabilizadas. Manter homens na maioria do conselho editorial funciona para elas, na esfera financeira e social. Não propor mudanças não só é lucrativo porque evita uma possível acusação de “doutrinação” por parte de críticos, mas, porque evita mudança – e mudança dá trabalho. Porque eles iriam mudar a forma que fazem jornalismo, se isso funciona há tantos anos? 

Mulheres precisam ocupar cargos de liderança, emitir opiniões livremente sobre situações pessoais e discutir sobre o machismo no jornalismo. Mulheres não-brancas precisam expressar em veículos de imprensa sobre situações que sofreram no meio do jornalismo sem medo de represálias, mulheres trans precisam discutir sobre como o jornalismo pode auxiliar no combate a transfobia, e por aí vai. 

É preciso união e perspectiva de futuro. Nós, jornalistas mulheres, não podemos somente pensar no que é bom para nós hoje, precisamos de um projeto e de uma irmandade. Construir e incentivar meninas pequenas que seguirão essa carreira, para que elas não lidem com situações de abuso, assédio e machismo.